terça-feira, 15 de agosto de 2017

Sobre a arte grotesca

Materiais para intervenção do público



No último domingo, fiz uma rápida visita ao CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil), em Belo Horizonte, onde se encontra em cartaz a exposição “O Corpo é a Casa”, do austríaco Erwin Wurm. A exposição começa com a seguinte proposta: “você mesmo pode ser uma obra de arte”. Para que isso possa se comprovar, deixa-se à disposição dos visitantes uma porção de utensílios como: uma cadeira, materiais de limpeza, lençóis sujos com travesseiros e outras coisas deste tipo. A partir de então, mediante uma sugestão (como, por exemplo, colocar a cadeira sobre a cabeça), você pode tirar foto em posições inusitadas e tornar a si mesmo um “objeto de arte”.

Mais à frente, a exposição mostra coisas como um conjunto de suéteres vestidos em uma caixa ou uma cômoda antiga de sala de TV, feita em algum material semelhante à borracha, atravessada e deformada por pneus. Uma coleção de pepinos exposta junto à foto de uma mulher babando sobre uma xícara de café e uma sala que repetia à exaustão um mesmo clipe da banda americana Red Hot Chilli Peppers completavam parte do cenário.

Nas "Esculturas de Um Minuto",
 é possível seguir a sugestão do artista,
desenhada ao lado da obra
(foto tirada da internet).
A proposta que vigora em trazer para ambientes como Galerias de Arte um objeto inusitado (como um urinol, por exemplo) e, assim, transformá-lo em obra de arte, simplesmente por estar em um lugar onde possa ser apreciado como tal, é como dizer que tirar um boi de um pasto e levá-lo a um alfaiate seria o mesmo que transformá-lo em um gentleman. O que faz a obra de arte, em meu entender, não é o ambiente de exposição ou a interação que se possa ter com um objeto, mas sua relação com o sublime ou o grotesco.

Victor Hugo foi um escritor francês (autor de “Os Miseráveis”) que teorizou a arte durante o nascimento do romantismo francês. O grotesco, no caso apresentado por ele, seria algo como a Fera, de a “Bela e a Fera” ou o “Corcunda de Notre Dame”, “Frankestein”, “Drácula” ou ainda as horrendas figuras do “Inferno”, de Dante. Todos estes exemplos reportam a um imaginário bestial, mas configurados em um cenário no qual dialogam com o sublime, mesmo que em termos opositores, ou, como ele mesmo diz: o grotesco no reverso do sublime. Diferentemente disto, um suéter com o qual se veste uma caixa ou uma porção de materiais de limpeza presos às axilas são simplesmente exercícios criativos...e feios.

A criatividade por si só não pode suplantar a arte. Se assim fosse, toda criança seria um artista. Embora tenhamos essa sensação, surgida do amor que sentimos pelas nossas crianças, sabemos que isto não é assim. De maneira semelhante, uma relação criativa com um objeto — como fazer um carro ficar “gordo” aplicando fibra plástica ou usar gesso para esculpir uma “casa de nuvem” — apontam em favor de uma noção interpretativa demais, muito criativa, e, devido mesmo a isso, dissociadas das obras de arte em um sentido verdadeiro. A arte sempre necessita de criatividade, e mesmo é vista como criação. Mas a parte puramente criativa da arte não passa de exibicionismo lúdico e não é capaz de produzir a “catarse” real — no dizer dos antigos gregos — que a obra de arte tende a provocar em nossas sensações e mentes.

Carro Gordo
Por fim, preciso dizer em defesa do CCBB-BH que recentemente assisti naquele espaço a uma peça de teatro maravilhosa, “Sobre Ratos e Homens”. Também lá pude ver uma exposição incrível, que flerta bastante com a noção do grotesco citada acima. Trata-se da exposição ComCiência, de autoria da também austríaca Patricia Piccinini, uma das exposições mais vistas das últimas décadas, atraindo inclusive pessoas que não tem o hábito de visitar galerias de artes. Além de ter a oportunidade única de ver, no Brasil, as obras abstratas de Kandisky, e por isso só tenho mesmo a agradecer ao CCBB-BH.


Obviamente, existem obras abstratas reais, que podem ser apreciadas e devem ser respeitadas, pois o “bom gosto” e o “bom senso” vigorando como preconceitos também podem ser bastante prejudiciais ao verdadeiro entendimento.