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| Materiais para intervenção do público |
No último domingo, fiz uma rápida
visita ao CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil), em Belo Horizonte, onde se
encontra em cartaz a exposição “O Corpo é a Casa”, do austríaco Erwin Wurm. A
exposição começa com a seguinte proposta: “você mesmo pode ser uma obra de
arte”. Para que isso possa se comprovar, deixa-se à disposição dos visitantes
uma porção de utensílios como: uma cadeira, materiais de limpeza, lençóis sujos
com travesseiros e outras coisas deste tipo. A partir de então, mediante uma
sugestão (como, por exemplo, colocar a cadeira sobre a cabeça), você pode tirar
foto em posições inusitadas e tornar a si mesmo um “objeto de arte”.
Mais à frente, a exposição mostra coisas como um conjunto de suéteres
vestidos em uma caixa ou uma cômoda antiga de sala de TV, feita em algum
material semelhante à borracha, atravessada e deformada por pneus. Uma coleção
de pepinos exposta junto à foto de uma mulher babando sobre uma xícara de café
e uma sala que repetia à exaustão um mesmo clipe da banda americana Red Hot
Chilli Peppers completavam parte do cenário.
| Nas "Esculturas de Um Minuto", é possível seguir a sugestão do artista, desenhada ao lado da obra (foto tirada da internet). |
A proposta que vigora em trazer para ambientes como Galerias de Arte um
objeto inusitado (como um urinol, por exemplo) e, assim, transformá-lo em obra
de arte, simplesmente por estar em um lugar onde possa ser apreciado como tal,
é como dizer que tirar um boi de um pasto e levá-lo a um alfaiate seria o mesmo
que transformá-lo em um gentleman. O que faz a obra de arte, em meu entender,
não é o ambiente de exposição ou a interação que se possa ter com um objeto,
mas sua relação com o sublime ou o grotesco.
Victor Hugo foi um escritor francês (autor de “Os Miseráveis”) que
teorizou a arte durante o nascimento do romantismo francês. O grotesco, no caso
apresentado por ele, seria algo como a Fera, de a “Bela e a Fera” ou o
“Corcunda de Notre Dame”, “Frankestein”, “Drácula” ou ainda as horrendas
figuras do “Inferno”, de Dante. Todos estes exemplos reportam a um imaginário
bestial, mas configurados em um cenário no qual dialogam com o sublime, mesmo
que em termos opositores, ou, como ele mesmo diz: o grotesco no reverso do
sublime. Diferentemente disto, um suéter com o qual se veste uma caixa ou uma
porção de materiais de limpeza presos às axilas são simplesmente exercícios
criativos...e feios.
A criatividade por si só não pode suplantar a arte. Se assim fosse, toda
criança seria um artista. Embora tenhamos essa sensação, surgida do amor que
sentimos pelas nossas crianças, sabemos que isto não é assim. De maneira
semelhante, uma relação criativa com um objeto — como fazer um carro ficar
“gordo” aplicando fibra plástica ou usar gesso para esculpir uma “casa de
nuvem” — apontam em favor de uma noção interpretativa demais, muito criativa,
e, devido mesmo a isso, dissociadas das obras de arte em um sentido verdadeiro.
A arte sempre necessita de criatividade, e mesmo é vista como criação. Mas a parte
puramente criativa da arte não passa de exibicionismo lúdico e não é capaz de
produzir a “catarse” real — no dizer dos antigos gregos — que a obra de arte
tende a provocar em nossas sensações e mentes.
| Carro Gordo |
Por fim, preciso dizer em defesa do CCBB-BH que recentemente assisti
naquele espaço a uma peça de teatro maravilhosa, “Sobre Ratos e Homens”. Também
lá pude ver uma exposição incrível, que flerta bastante com a noção do grotesco
citada acima. Trata-se da exposição ComCiência, de autoria da também austríaca
Patricia Piccinini, uma das exposições mais vistas das últimas décadas,
atraindo inclusive pessoas que não tem o hábito de visitar galerias de artes.
Além de ter a oportunidade única de ver, no Brasil, as obras abstratas de
Kandisky, e por isso só tenho mesmo a agradecer ao CCBB-BH.
Obviamente, existem obras abstratas reais, que podem ser apreciadas e devem ser respeitadas, pois o “bom gosto” e o “bom senso” vigorando como preconceitos também podem ser bastante prejudiciais ao verdadeiro entendimento.
