terça-feira, 31 de dezembro de 2019

As Aventuras de Alice no País das Maravilhas


As Aventuras de Alice no País das Maravilhas,
de Lewis Carroll

            Chegou a hora de As Aventuras de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll. Queria ler este livro há bastante tempo. Depois de anos na estante — até poeira na lombada tinha — surgiu uma oportunidade por estes dias e consegui. A foto acima corresponde à primeira edição da Coleção Fábula, realizada pela Editora 34 (São Paulo – 2016). Não é um primor editorial, mas o trabalho gráfico ficou muito bacana, principalmente devido às quarenta e duas ilustrações de época (1864) desenhadas por John Tenniel (falaremos delas depois). A impressão dos tipos é cuidadosa e firme, apoiada em papel amarelado de gramatura espessa, o que ajuda em muito a experiência de leitura. A capa de um amarelo vibrante dá uma boa dica do que virá. O texto não é longo, embora não seja tão fluido quanto eu gostaria. 

As Aventuras de Alice no País das Maravilhas é um destes clássicos inevitáveis. Inevitáveis mesmo, pois muito provavelmente você já deve ter topado com alguma referência retirada de suas páginas, seja em desenhos animados, filmes, citações e até mesmo em comerciais de TV. Essa popularização do universo de Alice criado por Lewis Carroll pode ser explicada por sua capacidade de associação. A simbologia usada no livro torna possível filiar as imagens da história a um sem-número de interpretações e usos.  Um coelho atrasado que não dispõe de tempo para ajudar ninguém, um chapeleiro maluco que não diz nada com nada durante um interminável e estranho ritual e uma rainha que resolve qualquer aborrecimento mais mínimo mandando decapitar seu contrariador são metáforas para inúmeras condições psicológicas, passíveis de compreensão mediante a observação destes personagens. Além de tudo, o universo de Alice é colorido e vibrante. 


A cena da entrega do convite - desenho de John Tenniel

Um dos pontos altos para mim (além da cena do Gato, é claro. É impossível ficar indiferente à cena do Gato!) foi a cena da entrega do convite. Podemos falar desta cena sem cair em spoiler. Alice estava em frente a uma determinada casa, quando viu um servo-peixe da Rainha chegar à porta com um convite no formato de carta, quase do seu tamanho, para entregar à Duquesa. Quem recebe o convite é o servo-sapo, da Duquesa. Ambos estão muito bem vestidos, com paramentos vitorianos, e ao se inclinarem para os cumprimentos, as cabeleiras se embaraçam. Eu lembro de ter achado essa cena bastante engraçada, dado o ridículo de toda aquela pompa envolvendo peixes e sapos. Para uma criança, certamente a gravidade das solenidades deve estar muito bem representada aqui.

Técnica de preenchimento -
trecho de quarto com janela
e detalhe da saia de Alice. 
Os desenhos de John Tenniel são um caso à parte. Eu não sei o nome da técnica empregada, mas adoro quando a textura dos desenhos são preenchidos com traços, criando a impressão de volume pelo cruzamento de várias linhas, sob a forma de um jogo-da-velha de infinitas quadrículas pequenas. É um desenho que o contorno é o próprio preenchimento. Acho incrível esta técnica. Demanda um tempo imenso para sua concepção, e não é preciso ser desenhista para chegar a esta conclusão. Sem contar o cuidado e a riqueza de detalhes resultante. Um artista contemporâneo que costuma aplicar esta técnica é Robert Crumb, de quem algum dia resenharemos alguma obra.

Finalmente, gostaria de dizer que não gostei tanto assim da leitura como eu esperava. Sabe aquela história de que o bom da festa é esperar por ela? Acho que isto se deu no meu caso. Não adianta, meu conselho para você que quer ser um bom leitor é gostar daquilo que te encantou, e não gostar de algo simplesmente por ser clássico. Eu reconheço a grandeza de Alice e as imagens são impressionantes, em alguns momentos eu realmente fiquei boquiaberto. Seu valor psicanalítico, por assim dizer, também é indiscutível. A riqueza de imagens e as possibilidades de interpretação são maravilhosas, eu consegui ver tudo isso.




Mas aconteceu de eu não gostar tanto assim da história. Isso às vezes pode se dar com qualquer um.  Talvez um dia eu revisite e espero ver com outros olhos As Aventuras de Alice no País das Maravilhas.  

Três Alices: Alice Liddell,  a jovem para quem o livro foi originalmente escrito;
Alice do clássico desenho da Disney e a atriz Mia Wasikowska, assumindo o papel de Alice
no filme dirigido por Tim Burton


TRECHO:

“— Comece pelo começo — disse o Rei com ar muito grave — e continue até chegar ao fim: então pare."

.*     *     *     *     *     *     *     *     *     *     *     *     *     *     *     *     *     *     *     *