terça-feira, 28 de outubro de 2014

"Ave, Palavra", de João Guimarães Rosa

Ave, Palavra. João Guimarães Rosa

Saudações.


Este é o primeiro comentário sobre um livro de nosso patrono, o escritor e poeta João Guimarães Rosa. Escolhemos "Ave, Palavra", simplesmente por estar à mão (sempre temos um livro de Guimarães Rosa à mão). A foto corresponde à quinta edição da obra, lançada pela Editora Nova Fronteira, com um acabamento muito bom, tanto na coloração das páginas como nos tipos, aos quais se optou por uma fonte que permite leitura suave e agradável. 

Pois bem, "Ave, Palavra" vê-se tratar de título laudatório. Realmente, são contos — cinquenta e seis ao todo — que apresentam o mais próximo do exato, sendo a palavra um elemento de fé, que busca simbolizar ideias e transmitir o transcendente que é o pensamento de outra pessoa. Tal parece ter sido a busca incansável deste genial escritor. 

Nas histórias de "Ave, Palavra" Guimarães Rosa apresenta uma miscelânea de textos que vão desde a prosa poética — característica principal de seus trabalhos — até poemas propriamente ditos, passando pelos adágios, diários, aforismos e até mesmo textos dramáticos, passíveis certamente de encenação. Mestre da síntese, Rosa alcança nestes textos uma possibilidade de leituras rápidas, como no inexorável esforço de síntese de "Tutameia", outro livro do autor, um pouco mais denso que "Ave, Palavra". Neste, temos rápidas inserções de alta literatura em histórias simples ou ainda inesperados relatos imprevisíveis, como anotações de visitas do autor a alguns zoológicos pelo mundo, impressões sobre Paris ou uma surpresa grata nos expedientes do Itamaraty, visto o autor ter trabalhado como diplomata. No entanto, não se engane: a aparente simplicidade dos textos demonstram igualmente uma capacidade de síntese capaz de reduzir em uma frase uma ideia cabível em parágrafo.  Além desta curiosidade afeita mais ao leitor-escritor, vale o entrecho das histórias e o espanto dos aforismos e descrições, como neste: “também o defeito dos outros são horríveis espelhos” (e eis que aí temos quase toda uma teoria sobre projeção demonstrada).

Sinceramente, ler Guimarães Rosa é maravilhoso. Altamente recomendamos (olha a feira!).


TRECHO:

                        “Onde eu estava ali era um quieto. O ameno âmbito, lugar entre-as-guerras e invasto territorinho, fundo de chácara. Várias árvores. A manhã se-a-si bela: alvoradas aves. O ar andava, terso, fresco. O céu – uma blusa. Uma árvore disse quantas flores, outra respondeu dois pássaros. Esses, limpos. Tão lindos, meigos, quê? Sozinhos adeuses. E eram o amor em sua forma aérea. Juntos voaram, às alamedas frutíferas, voam com uniões e discrepâncias. Indo que mais iam, voltavam. O mundo é todo encantado. Instante estive lá, por um evo, atento apenas ao auspício.”

(ROSA, Guimarães. Uns Inhos Engenheiros, in: Ave, Palavra. 5ª edição. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001. p 81)


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