| Sermões - Tomo II |
Saudações.
A foto acima corresponde ao Tomo
2 da bem cuidada edição dos Sermões do Padre Antonio Vieira realizada pela
Editora Hedra. Constam nesta edição cinquenta sermões do
Padre Antonio Vieira, divididos em dois volumes, dos quais vinte e cinco estão
elencados neste tomo 2. A capa é a da foto acima. A obra é bem acabada, composta com papel ligeiramente
amarelado, mas com a fonte impressa de forma clara e legível, embora um pouco
pequena (expediente necessário, pois mesmo assim o volume ficou bem largo na
lombada).
As belíssimas argumentações de
Vieira têm sido objeto de admiração desde sua aparição, no séc.
XVII. Conquistou apreciadores de peso, como o poeta Fernando Pessoa, que dizia de Vieira o “Imperador da Língua Portuguesa”, um “gênio de perfeição
linguística”. Nisso também encontramos eco em diversos autores, como o também
poeta Manoel de Barros, que cita o deslumbramento causado pela leitura de
Vieira na juventude. E podemos dizer que desde sempre foi assim, pois consta
defesa de tese sobre seus sermões na Universidade do México em 1683, com o
autor ainda vivo.
Todo o colorido das barrocas
argumentações de Padre Antonio Vieira nos conduzem a um estado de indescritível observação
da beleza. Ao serem desvendadas camadas e mais camadas de argumentações
retóricas, sustentadas por uma capacidade de estilização característica do
período barroco, mas sem ornamentação gratuita, vemos muitas vezes, o sentido aparecer claro duas páginas após o início de uma argumentação. Para ilustrar, ocorrem-me
duas imagens: aqueles exercícios matemáticos de expressões algébricas, nos
quais tínhamos que resolver
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| Volutas |
primeiramente os parênteses, depois os colchetes e,
por último, as chaves. Vieira abre muitos parênteses em suas argumentações — digressão
em harmônicos, vale dizer —, mas sabe como ninguém encadeá-los de forma a não
se afastar demais, a ponto de haver perda do sentido da leitura. E há resultado
final na forma de uma síntese, ou uma “chave de ouro”, geralmente utilizada por
ele. A outra imagem é barroca e me recorda as volutas do período
Barroco/Rococó, presente em muitas obras arquitetônicas daquela época,
ilustrada aqui pela foto ao lado. As volutas são belas e voluptuosas, mas se
estendem e retornam nosso olhar desde um centro fixo, ponto de confluência de
sua direção, até o desenlace integral de suas belas formas. No entanto, outra imagem ainda pode ser útil: os textos de Vieira são como belíssimo rio, de sinuoso fluxo e
que — segui-lo — vai dar exato ao mar.
De toda forma, são sermões, não esqueça. É um homem que soube ler seu tempo. Supreendentemente, a metafísica dos textos de Vieira, sendo ele um padre, aparece muito pouco. Posso afirma que a metafísica do Padre Antônio Vieira ocorre por instrumentação estética. Explico: é como se o uso da linguagem absorve o leitor da experiencia mundana e o lançasse em outra esfera de significado. Até aí, tudo bem, pois todo bom autor é capaz de fazer isso, mas Vieira faz isso através de um domínio tão arguto da língua portuguesa, que a própria estruturação do discurso argumenta. Você quase não precisa de esforço para entender a lógica de Vieira. Ao final da leitura, a benção do autor é a capacidade de clareza de pensamento deixada como legado, e o exato exprimir de uma ideia é capaz de nos permitir viver melhor. Neste sentido, Vieira é um salvador entre os homens.
De toda forma, são sermões, não esqueça. É um homem que soube ler seu tempo. Supreendentemente, a metafísica dos textos de Vieira, sendo ele um padre, aparece muito pouco. Posso afirma que a metafísica do Padre Antônio Vieira ocorre por instrumentação estética. Explico: é como se o uso da linguagem absorve o leitor da experiencia mundana e o lançasse em outra esfera de significado. Até aí, tudo bem, pois todo bom autor é capaz de fazer isso, mas Vieira faz isso através de um domínio tão arguto da língua portuguesa, que a própria estruturação do discurso argumenta. Você quase não precisa de esforço para entender a lógica de Vieira. Ao final da leitura, a benção do autor é a capacidade de clareza de pensamento deixada como legado, e o exato exprimir de uma ideia é capaz de nos permitir viver melhor. Neste sentido, Vieira é um salvador entre os homens.
TRECHO
"(...) Da Madalena disse
Cristo: Quoniam dilexit multum [porque muito amou] e o
amor que parece muito a Deus grande amor é. Mas que teve de grande este
amor? Lágrimas, e de uma mulher? Muitas choram, e facilmente. Quebrar o
alabastro? Os mármores se quebram por si mesmos na morte de Cristo. O
preço do unguento? Só na avareza de Judas foi grande preço. Enxugar os pés do
Senhor com os cabelos? Mais faria se os cortara. Onde está logo a
grandeza daquele ato? Onde está o muito daquele dilexit
multum? [muito amou] S. Pedro
Crisólogo o observou agudamente em duas palavras do texto: Stans
retro [por detrás]. Tudo
o que a Madalena fazia, não era aos olhos, senão às espaldas de
Cristo: retro - e neste modo de servir consistiu o muito
do amar. O ver e não ver em Deus só se pode verificar na pessoa de Cristo.
Cristo com os olhos da divindade via a Madalena, mas com os olhos da
humanidade não a via; e como ela chorava e ungia, servia e amava não como
Deus a via, senão como Deus a não via: stans retro - nela
se verificou à letra: Servir a Deus que nos vê, como se o mesmo Deus
nos não visse. Por isso o seu amor por boca do mesmo Deus foi
canonizado por heroico, que no conceito de Deus só o heroico é
muito: Stans retro, dilexit multum [por detrás dele, muito o amou].”
(VIEIRA, Antonio. Sermão da Quinta Feira da Quaresma, in: Sermões – Tomo II. 1ª edição. São
Paulo: Editora Hedra, 2014. p 179 e 185)
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