terça-feira, 28 de outubro de 2014

"Sermões", de Padre Antonio Vieira

Sermões - Tomo II

Saudações.

A foto acima corresponde ao Tomo 2 da bem cuidada edição dos Sermões do Padre Antonio Vieira realizada pela Editora Hedra. Constam nesta edição cinquenta sermões do Padre Antonio Vieira, divididos em dois volumes, dos quais vinte e cinco estão elencados neste tomo 2. A capa é a da foto acima. A obra é bem acabada, composta com papel ligeiramente amarelado, mas com a fonte impressa de forma clara e legível, embora um pouco pequena (expediente necessário, pois mesmo assim o volume ficou bem largo na lombada). 

As belíssimas argumentações de Vieira têm sido objeto de admiração desde sua aparição, no séc. XVII. Conquistou apreciadores de peso, como o poeta Fernando Pessoa, que dizia de Vieira o “Imperador da Língua Portuguesa”, um “gênio de perfeição linguística”. Nisso também encontramos eco em diversos autores, como o também poeta Manoel de Barros, que cita o deslumbramento causado pela leitura de Vieira na juventude. E podemos dizer que desde sempre foi assim, pois consta defesa de tese sobre seus sermões na Universidade do México em 1683, com o autor ainda vivo.

Todo o colorido das barrocas argumentações de Padre Antonio Vieira nos conduzem a um estado de indescritível observação da beleza. Ao serem desvendadas camadas e mais camadas de argumentações retóricas, sustentadas por uma capacidade de estilização característica do período barroco, mas sem ornamentação gratuita, vemos muitas vezes, o sentido aparecer claro duas páginas após o início de uma argumentação. Para ilustrar, ocorrem-me duas imagens: aqueles exercícios matemáticos de expressões algébricas, nos quais tínhamos que resolver
Volutas
primeiramente os parênteses, depois os colchetes e, por último, as chaves. Vieira abre muitos parênteses em suas argumentações — digressão em harmônicos, vale dizer —, mas sabe como ninguém encadeá-los de forma a não se afastar demais, a ponto de haver perda do sentido da leitura. E há resultado final na forma de uma síntese, ou uma “chave de ouro”, geralmente utilizada por ele. A outra imagem é barroca e me recorda as volutas do período Barroco/Rococó, presente em muitas obras arquitetônicas daquela época, ilustrada aqui pela foto ao lado. As volutas são belas e voluptuosas, mas se estendem e retornam nosso olhar desde um centro fixo, ponto de confluência de sua direção, até o desenlace integral de suas belas formas. No entanto, outra imagem ainda pode ser útil: os textos de Vieira são como belíssimo rio, de sinuoso fluxo e que — segui-lo — vai dar exato ao mar.

De toda forma, são sermões, não esqueça. É um homem que soube ler seu tempo. Supreendentemente, a metafísica dos textos de Vieira, sendo ele um padre, aparece muito pouco. Posso afirma que a metafísica do Padre Antônio Vieira ocorre por instrumentação estética. Explico: é como se o uso da linguagem absorve o leitor da experiencia mundana e o lançasse em outra esfera de significado. Até aí, tudo bem, pois todo bom autor é capaz de fazer isso, mas Vieira faz isso através de um domínio tão arguto da língua portuguesa, que a própria estruturação do discurso argumenta. Você quase não precisa de esforço para entender a lógica de Vieira. Ao final da leitura, a benção do autor é a capacidade de clareza de pensamento deixada como legado, e o exato exprimir de uma ideia é capaz de nos permitir viver melhor. Neste sentido, Vieira é um salvador entre os homens. 

TRECHO

"(...) Da Madalena disse Cristo: Quoniam dilexit multum [porque muito amou]o amor que parece muito a Deus grande amor é. Mas que teve de grande este amor? Lágrimas, e de uma mulher? Muitas choram, e facilmente. Quebrar o alabastro? Os mármores se quebram por si mesmos na morte de Cristo. O preço do unguento? Só na avareza de Judas foi grande preço. Enxugar os pés do Senhor com os cabelos? Mais faria se os cortara. Onde está logo a grandeza daquele ato? Onde está o muito daquele dilexit multum? [muito amou] S. Pedro Crisólogo o observou agudamente em duas palavras do texto: Stans retro [por detrás]Tudo o que a Madalena fazia, não era aos olhos, senão às espaldas de Cristo: retro - e neste modo de servir consistiu o muito do amar. O ver e não ver em Deus só se pode verificar na pessoa de Cristo. Cristo com os olhos da divindade via a Madalena, mas com os olhos da humanidade não a via; e como ela chorava e ungia, servia e amava não como Deus a via, senão como Deus a não via: stans retro - nela se verificou à letra: Servir a Deus que nos vê, como se o mesmo Deus nos não visse. Por isso o seu amor por boca do mesmo Deus foi canonizado por heroico, que no conceito de Deus só o heroico é muito: Stans retro, dilexit multum [por detrás dele, muito o amou].”


(VIEIRA, Antonio. Sermão da Quinta Feira da Quaresma, in: Sermões – Tomo II. 1ª edição. São Paulo: Editora Hedra, 2014. p 179 e 185)

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