| Crônica do Pássaro de Corda - Haruki Murakami |
A
primeira edição do romance “Crônica do Pássaro de Corda”, de autoria do escritor
japonês Haruki Murakami, saiu no Brasil pela editora Alfaguara no ano de 2017.
Com tradução do Japonês de Eunice Suenaga, tradutora de outras obras do autor,
como o “Romancista como Vocação” (2017) e “O Incolor Tsukuru Kasaki e Seus Anos
de Peregrinação” (2014), o livro físico da “Crônica” é bastante grosso na
lombada, possui 766 páginas e é realmente um “tour de force”, como anuncia o
comentário na contracapa. No entanto, qualquer cruzamento oceânico abandona outra
margem e deixa para trás um antigo mundo. As impressões deste livro são
“mágicas”.
Crônica
do Pássaro de Corda é um livro impressionante. É até mesmo difícil escrever com
isenção, dada a força com a qual esta obra me tomou, pois os personagens mesclam-se
à narrativa instituindo um clima de suspense ininterrupto, construído sob a
atmosfera de mistério diante de uma cadeia de eventos indissociáveis que,
embora pareçam aparentemente desconexos, revelam por fim, sob crescente
violência, um toque de terror psicológico que une em arco toda a narrativa.
A
violência, no entanto, e a bem que se diga, não é a violência explícita,
exposta e abundante sob a formas de socos, armas e pontapés (embora haja um
pouco disso também). Mas uma violência “simbólica”, por assim dizer, se apresenta.
É a história de um homem em busca de redenção em certo momento de sua vida
diante do aparecimento de eventos bastante insuspeitados para ele. Podemos
resumir o começo de tudo isso mais ou menos assim:
Por
volta de seus trinta anos, Toru Okada ficou desempregado. Isso não foi nenhum
problema, pois ele e Kumiko, sua esposa, tinham reservas suficientes para se
manterem por um bom tempo e Toru parecia precisar mesmo de um tempo, pois vivia
bastante apático diante da carreira na área do direito que seguia, para a qual seu
desempenho era totalmente indiferente.
Tendo
dito desta forma, parece mesmo a introdução de um livro comum, mas este é o
resumo apresentando apenas as três primeiras páginas do romance. A partir daí,
tudo toma um colorido impressionante. Pois com este pequeno acontecimento banal
(ficar desempregado), o autor deixa o personagem livre para viver as várias
aventuras para as quais será chamado durante o restante da narrativa.
Toru Okada vai
se encontrar com personagens cada vez mais significativos, como, por exemplo,
May Kasahara, uma intrépida vizinha adolescente, ou Malta Kanô, uma mulher com
uma estranha profissão e que também tem uma irmã com nome de ilha; o primeiro
tenente Mamiya, ex-combante da guerra entre Japão e Rússia pela posse da
Manchuria, na China, bem como seu algoz, o tenente coronel russo Boris. Além destes,
o intrigante Noboru Wataya, seu cunhado estranhamente perturbado. Este é um
panorama mínimo de personagens. A abundância de detalhes fornecida por Murakami
e a forma com a qual tudo isso se prontifica como narrativa fazem deste livro
uma exploração interessante de tipos humanos urbanos, em nível quase
lendários.
Quanto
à narrativa propriamente dita, o livro causou-me a impressão, como já disse, de
uma redenção. Toda a mítica história que envolve um poço traduz de forma
altamente simbólica a condição de Okada. Estou tentando ser descritivo sem
antecipar nada fundamental na narrativa, para aqueles que quiserem ler, mas é
impossível falar desse livro sem falar deste poço, ou da imagem do poço, já que
este símbolo aparece na narrativa mais de uma vez, sob a forma de poços diferentes.
Estar
no fundo do poço ou encontrar uma condição na qual o fundo do poço estaria
presente é a grande imagem que resume a narrativa deste livro. No entanto, como
se fosse um grande poema, uma reverberação em imagem da totalidade da
narrativa, a mensagem do fundo do poço não se apresenta piegas como metáfora de
tristes condições. Pode-se dizer que o fundo do poço é um personagem deste
grande livro. Algo realmente difícil de descrever, mas facilmente perceptível no
decorrer da narrativa.
— Eu tenho o
poço — disse.
— Você ainda precisa conseguir seu poço — respondeu Noz-Moscada, sorrindo, como se estendesse com delicadeza um lenço de boa qualidade. — Mas tudo tem seu preço. (Parte III, cap. 10, pg. 512).
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