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| Tornado em Xanxerê, SC. |
Tornados são eventos que não costumam aparecer no Brasil. Pode ter acontecido uma vez ou outra, como foi o caso em Santa Catarina, se não me engano no ano de 2004. O certo é que tornados, quando acontecem no Brasil, são exceções. Eu mesmo nunca vi. Só uma vez, quando eu estava chegando a Brasília de ônibus, eu vi um redemoinho mirim formado por uma poeirada de areia seca marrom que girava, nada ameaçadora. Estava mais para ridículo, embora auspicioso, porque eu nunca tinha visto nada semelhante.
No entanto, tornados mesmo parece que no Brasil não têm. Nos Estados Unidos é diferente. Dizem que por lá as pessoas precisam de ter um lugar para se esconder no porão na ocorrência de um tornado. Pode ser que a fúria do evento leve embora a casa toda, mas se os habitantes do lugar estiverem escondidos abaixo da linha do solo, o tornado não os alcançará e ocorrerá um livramento difícil. Mas melhor isto que encarar um tornado, não é verdade?
Uma vez eu vi uma reportagem no Canal Arte 1 sobre uma instalação de um artista que eu não lembro o nome. Peço desculpas por isto, mas eu não lembro mesmo. Tanto que em outros tempos já tentei até mesmo pesquisar sobre este artista, porque eu queria assistir novamente aquela reportagem, mas nunca achei. A reportagem falava de uma instalação na qual o artista apresentava uma proposta que era o seguinte: ele escolhia tornados que fossem classificados como “moderados”, e seguia em direção a um deles a pé, segurando uma câmera na mão. No caminho, o som da filmagem acompanhava um terrível rodopio de folhas e gravetos lançados ao ar em giros mais ou menos assustadores, e tudo aquilo gerava uma imensa aflição, porque aquele era um cenário para ser de fuga, mas o homem partia para cima daquele tornado com grande convicção, e prosseguia filmando tudo. No entanto, embora todo o mal estar que a cena produzisse, tudo aquilo suspendia o tempo durante aquela audiência, e eu percebia a mim mesmo em um registro precioso e, de certa forma, magnético. A gravação do artista permitia ouvir o som da fúria que aquele tornado queria alimentar com seu giro que raspava o mundo. E enquanto aquele homem seguia com sua câmera até lá, os arredores visíveis na tela gradualmente tomavam um corpo cinza, veloz e barulhento, até que ele atravessava aquilo que poderia chamar aqui de “parede” do tornado e adentrava o centro. Você acompanhando tudo aquilo tinha medo dele morrer naquele instante, mas quando finalmente aquele homem alcançava o centro, suspendiam-se o som e a fúria. No centro, você podia observar aquela violência toda através de uma espécie de vácuo. No centro do tornado, embora o cinza tenebroso pudesse ser observado em toda sua violência, não havia mais aquela raspagem do mundo, pois no centro do tornado pairava um som opaco e não havia mais vento, e o próprio tornado, quase como se fosse inofensivo, não alcançava atingir aquele pudesse observá-lo desde seu centro. O som da violência ficava para fora daquele lugar, pois daquele ponto era possível observar a devastação diante de um privilégio perigoso. Era naquele momento o artista virava a câmera para si e sorria e o vídeo recomeçava e permanecia em loop infinito na exposição citada na reportagem do Canal Arte 1.
Certamente, este Ícaro dos tornados deve de ter outras ocupações em sua carreira artística e eu apostaria que este evento pode ter sido apenas uma fase isolada em sua vida. De toda forma, ficou claro para mim que estes eventos têm um ponto em comum com a calma que podemos experimentar em locais como o litoral de Santa Catarina, onde pelo que se sabe não tem tornado nenhum acontecendo agora e esperamos que continue assim.
E isso era tudo o que eu tinha para falar sobre tornados.

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