segunda-feira, 24 de maio de 2021

Evasivas Admiráveis

 



O livro Evasivas Admiráveis, escrito por Theodore Dalrymple (pseudônimo do psiquiatra inglês Anthony Daniels), tem registrada sua primeira edição no Brasil em 2017 pela editora “É Realizações”. A impressão do livro vem com tipografia nítida que se destaca no papel cartonado de grossa gramatura, mas ainda assim não o torna largo na lombada. Seus 11 capítulos cabem em apenas 96 páginas. De toda forma, o projeto gráfico e a tipografia são bem realizados.

Quando li o livro de Theodore, senti um profundo alívio, do qual quero comentar depois. Neste primeiro momento, furto-me a discorrer sobre a possibilidade apontada pelo autor de a psicologia como tratamento favorecer a subversão da moralidade.

Ainda que eu não seja um psicólogo de formação, sempre gostei de estudar e tentar entender a mente humana, principalmente a minha. Durante muitos anos, mais ou menos entre 2007 e 2012, quase tudo o que eu li tinha relação com a psicologia de uma forma ou de outra. Li obras de muitos autores, incluindo as fundamentais de Freud, mas tive contato mais profundo com a obra do psicólogo suíço Carl Jung. Li praticamente toda sua coleção, revisitando frequentemente alguns livros-chave.

Peço desculpas ao leitor por esta grande introdução falando de mim mesmo, mas com isso queria demonstrar que tenho algum trato com a matéria a ponto de poder tecer minhas próprias considerações sobre a psicologia, mantendo todo o cuidado de ater a esta mesma opinião um panorama que a respalde mediante dados retirados da realidade. Com isso quero dizer também que evito tecer considerações baseadas unicamente em meus próprios sentimentos para construir uma ideia própria sobre a psicanálise.

Pois bem, tendo dito tudo isso, vamos ao livro de Theodore Dairymple. Seu livro pareceu-me muito com um conjunto ou coleção de opiniões cujo respaldo na realidade é evocado mediante dados sem critério de apresentação, que voam de cá para lá em cada parágrafo do texto sem sustentação duradoura. Ele atribui às deduções que apresenta (não a todas obviamente, mas falo aqui da tonalidade do livro) ele apresenta deduções como se fossem leis, e evoca o tempo inteiro a depreciação julgadora. Tenho que dizer que não era bem isso o que eu esperava de um livro com um título tão provocativo, que parecia se propor a discutir e demonstrar em suas 96 páginas “como a psicologia subverte a moralidade”. Para mim, não chegou nem perto disso.

Dr. Sigmund Freud,
criador da psicanálise

Logo no início, o autor afirma que “o ego, o id e o superego [são] coisas que não podem ser vistas, mas nas quais se acredita fortemente, pois proveem explicações para sentimentos indesejados, experiências e comportamentos, bem como a esperança de que sejam eliminados.” Depois ele acusa tais explicações psicológicas de superstições, por serem baseadas em pressupostos “que não se podem ver”, ou seja, para o autor, o id, o ego e o superego não seriam nada mais do que crenças. No entanto, muitas afirmações constantes como válidas no mundo da ciência são aceitas como existentes sem comprovação, como o fenômeno da formação do pensamento, por exemplo. O pensamento é um fenômeno plenamente comprovável, mas até hoje não se sabe com certeza como é produzido. Portanto “ver” alguma coisa não é sinônimo da atestação de sua existência, mesmo que tal ato de “ver” seja talvez uma metáfora para a comprovação. Não vemos o oxigênio, mas podemos “vê-lo” através de modelos. O ego, o id e o superego também são modelos, que apresentam contornos observáveis na mente e nos atos humanos. No entanto, Theodore não faz nenhuma crítica ao modelo propriamente dito, apenas se restringe a chamar o freudismo (sic) de falso e absurdo por propor “coisas que não se pode ver”.

Ainda segundo o autor, “as reivindicações de Freud de que foi um cientista não resistem ao escrutínio”, embora ele não apresente os dados de tal escrutínio e nem sequer aponte alguma leitura ou contexto no qual o leitor possa encontrar os alicerces de sua crítica, fundada em bases que não aparecem nunca, a não ser sob as formas pelas quais o tal freudismo é acusado de falso, absurdo, desavergonhado etc. Embora sustente em uma única linha que “Freud era indiscutivelmente brilhante, muito culto e bom escritor”, Theodore apresenta em seguida um longo parágrafo onde afirma que “é historicamente comprovado que Freud tinha o hábito de mentir”, “fabricava provas”, era “um plagiador, que não reconhecia e deliberadamente negava a origem das suas ideias”. Além disso, era também um “manipulador de pessoas”, “ávido e inescrupuloso nas finanças” e, finalmente, o “fundador de uma seita” (a própria psicanálise). Tal seleção de fatos apresentados em sequência podem produzir no leitor um sentimento de revolta e alienação contra Freud, pois ele é “plagiador, avaro, mentiroso” etc. Apelando de tal forma ao sentimento do leitor, Theodore nada mais faz que trazer à tona preconceitos e revelações, afinal de contas ele diz que tais coisas são “historicamente comprovadas”, mas não aponta ao menos um exemplo de onde o plágio, a avareza e a mentira se dão, abrangendo com isso um terreno perigoso para argumentação, segundo o qual o principal argumento contra alguma coisa é simplesmente não gostar dela e atirar pedras.

É claro que ele acerta em alguns pontos, como ao discutir a projeção e o valor simbólico do mundo, segundo o qual seria necessário interpretar os significados ocultos que podem estar atrás de cada pensamento, o que pode levar à paranoia. No entanto, este é propriamente um método psicanalítico de análise da paranoia, o que significa que a matéria não é tão inconsistente assim. Em outro momento ele aborda a questão das análises intermináveis (muitas pessoas que já fizeram algumas sessões de psicanálise experimentaram essa sensação frustrante de nunca conseguir chegar ao “fim da análise”), mas tudo neste livro é discutido muito ao rés-do-chão, assemelhando-se em muito ao modelo utilizado pelos autores de livros de autoajuda, que Theodore critica ferozmente em seu “prefácio à edição brasileira”.

Quando discute que a psicanálise se baseia na descoberta de desejos reprimidos e na consecução destes, o autor conclui que tal atitude provocaria uma patologia na qual a autoindulgência seria a meta, pois a frustação do desejo é, segundo o que ele apresenta, a raiz da patologia. Em outras palavras, a psicanálise, segundo o autor, é uma ciência que afirma que precisamos descobrir nossos desejos reprimidos para realizá-los, e a magia acontece através de evasivas admiráveis que levariam o sujeito liberto a encontrar a tal subversão moral citada no subtítulo. No entanto, até onde posso afirmar, e de forma muito simplista, a psicanálise aponta para o fato de que devemos trazer nossos desejos à tona ao buscar pela sua origem, para que assim possamos torná-los conscientes e lidar com eles de forma sadia. Jung diz que “até você se tornar consciente, o inconsciente vai dirigir sua vida, e você vai chamá-lo de destino”, e o que ele quer dizer com isso remonta à necessidade em reconhecer os conteúdos reprimidos no inconsciente para que você possa saber algo sobre si mesmo de forma consciente, de forma a não ser levado por aí mediante pulsões e desejos que estão “fora de seu controle”. Talvez, quando você se deparar com tais “pulsões e desejos” de forma consciente, a última coisa que você queira seja realizá-los. No entanto, Theodore parte do pressuposto de que a ruína moral contemporânea surge com o liberalismo moral proposto pela psicanálise, que sugere a descoberta do desejo para que o indivíduo possa estar livre para realizá-lo.  Eu pelo menos nunca encontrei suporte psicanalítico em qualquer estudo sério que apontasse na direção da satisfação indiscriminada dos desejos (o que realmente levaria à subversão da moralidade apregoada no subtítulo do livro). A satisfação indiscriminada do desejo leva à doença. Qualquer pessoa que já esteve mergulhada em fantasias projetadas no mundo pode atestar isso, desde que as tenha reconhecido como tais, como quer a psicanálise. Certa vez um amigo disse-me que seu psicólogo havia sabiamente lhe apontado para o fato de que muitas fantasias devem ficar apenas no campo das fantasias. Esse é o ponto.  A psicanálise não busca a satisfação, mas a descoberta do desejo reprimido, que poderia levar o paciente a uma escolha consciente, ao invés de ser levado por impulsos de desejos inconscientes.

Dr. Carl Jung, criador da
Psicologia Analítica
        Quanto ao método utilizado por Theodore em seu livro, não podemos negar que haja um esforço por parte do autor em tentar dar suporte aos seus argumentos. Através de uma analogia literária, por exemplo, Theodore utiliza versos do poeta britânico William Blake para respaldar com autoridade poética a noção de satisfação de desejos como uma espécie de conselho deturpado dado por Freud por intermédio da psicanálise, que provocou a ruína moral contemporânea. Segundo a analogia de Theodore, o poeta Blake estendeu a bandeira da modernidade ao dizer que “aquele que deseja mas não age gera a pestilência”. No entanto, Theodore oculta que esta frase se encontra no livro Casamento do Céu e do Inferno, e faz parte da seção “Provérbios do Inferno”, onde a sabedoria do inferno cita tais regras. Portanto, liberar desejos indiscriminadamente é um conselho vindo diretamente do “inferno” cantado por Blake, e não da psicanálise.

Exemplos como estes são abundantes em todo o livro, que vai criticar ainda o behaviorismo, a negação da identidade pessoal (inexistência de um eu), a administração de medicamentos e vários outros temas que já são polêmicos há anos, ou seja, não foram uma descoberta apontada por ele. Quase toda a discussão levantada por ele no livro baseia-se em preconceitos aborrecidos que exalam um mal humor possível até mesmo de sentir; mal humor que contamina o leitor, em certo sentido. Textos que buscam convencer o leitor através dos sentimentos destes são para mim passíveis de desconfiança, no mínimo. Leia o livro de Theodore Dalrymple com distanciamento crítico, senão você pode ser inflamado.

Enfim, comecei este texto dizendo do alívio que senti ao ler o livro de Theodore, mas não posso deixar de dizer que fui irônico com este comentário. É uma coisa feia, eu sei, mas fiquei aliviado em não encontrar ali a refutação que há tantos anos procuro, ouço falar, mas não encontro com sustentação válida; uma refutação que comprove os seguintes fatos evocados costumeiramente por algumas pessoas: que a psicanálise não é uma ciência, que não se funda em dados comprováveis e que não tem valor terapêutico verdadeiramente útil. Até hoje, ninguém conseguiu me convencer disto. O livro de Theodore tampouco foi capaz de fazer esta crítica de maneira séria e honesta. Não digo a crítica parcial, pois muita coisa deve ser descoberta como erro nos estudos psicanalíticos para ser repensada e assim fazer com que haja um salto para frente.  Certamente, ele apontou alguns pontos de vista válidos como crítica, no entanto todos eles surgem de dentro de algo que existe, ou seja, não foram críticas que desmantelaram uma farsa, mas que revelaram um ou outra falha dentro do contexto interno do mesmo sistema psicanalítico que ele visava destruir “de fora”. Por fim, caso algum leitor saiba de um trabalho sério voltado para a refutação da psicanálise (não a pontos críticos no contexto interno da psicanálise) eu gostaria de conhecer, embora desconfie que tal trabalho não seja realmente possível.


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